Alair Corrêa começa humilde, escorrega e volta a alfinetar adversários

O prefeito de Cabo Frio postou mais um texto em sua conta pessoal no Facebook e mais uma vez aposta no turismo como o caminho para tornar a cidade menos dependente dos royalties do petróleo. 

Já escrevi sobre essa insistência prefeito em recente artigo (clique aqui para ler) e continuo com a opinião de que o modelo de governo dos últimos anos não favorece em nada a economia local.

Com o título “Sem petróleo o caminho é o turismo!”, Alair Corrêa começa a falar dos descaminhos da economia e de toda riqueza mal administrada por ele por seus antecessores. O prefeito esboça uma interessante e atípica mea culpa. Ficou só no esboço mesmo!

Vejamos parágrafo por parágrafo do texto do prefeito:

SEM PETRÓLEO O CAMINHO É O TURISMO!! (reprodução ipsis litteris)

  • “Esse momento não é para estarmos buscando culpados pela situação delicada que estamos passando em Cabo Frio. Temos que lembrar que a crise do petróleo é internacional, pois trata-se de uma briga entre os países produtores. Já aqui no Brasil, temos como agravante o escândalo da Petrobras. Lembramos que juntos esses dois acontecimentos quase faliram nossas cidades”.

Nada além de uma abordagem do cenário econômico internacional e as consequências sobre os municípios economicamente dependentes das transferências constitucionais. O efeito dominó sempre será regra nas relações comerciais mundiais. Se o preço do barril de petróleo cai, a repercussão será sentida nos cofres públicos também. Por falta de planejamento o município ficou - e está! - refém das circunstâncias.

  • “No entanto, se não somos responsáveis pela queda dos ROYALTIES, no entanto, temos responsabilidade por não termos preparado o município para esse tipo de problema. Por isto, nós, os políticos cabofrienses, somos sim culpados”. 

Aqui reside o intrigante excerto da manifestação do prefeito. Por um átimo de segundo ele se inclui no rol dos culpados pela não preparação do município para os dissabores das crises econômicas nascidas das especulações ou da lei da oferta e da procura do mercado internacional. 

E continua...

  • “É simples entendermos: tivemos muito dinheiro e não aplicamos em outras atividades, como por exemplo, no turismo. É verdade que, nem com bola de cristal, poderíamos enxergar que um dia a Petrobras pudesse ser saqueada como foi por esses criminosos. Mas já quanto a queda no preço do barril do petróleo e quanto à crise no mundo era tudo bem previsível. Entretanto, nesses anos de royalties, ficamos acomodados e nada fizemos”.

Para quem governa com a consciência de um plano de gestão de curto, médio e longo prazos é totalmente dispensável a “bola de cristal”. Um bom gestor não tem como bússola as adivinhações extraídas de uma bolinha mágica. Pelo contrário, suas ações devem servir como antídoto para possíveis intercorrências das relações do mercado. 

Sob o aspecto da administração este é o parágrafo mais contundente, especialmente quando o prefeito, de forma enfática sentencia: “tivemos muito dinheiro e não aplicamos em outras atividades, como por exemplo, no turismo”. Já não é de hoje que o problema da cidade não é a falta de dinheiro. É falta de quem o administre bem! 

Quanto a estas “outras atividades”, incluindo o turismo, o plural foi muito bem aplicado pelo prefeito. São muitas outras atividades órfãs de uma atenção responsável dos governos. Todos tiveram como padrão comportamental administrativo a seletividade. Cada um, à sua maneira, procura se destacar por um dos setores da administração: enquanto um se diz “o prefeito do social”, o outro “é o prefeito das obras”, da “queima de fogos”, dos “grandes shows”. Num passado remoto tinha o que publicamente era visto como o “prefeito amigo do servidor público” e outro afeito à ideia do “SOS Irmãozinho”.

  • “O recebimento dos royalties começou em 1987 e os prefeitos desses 30 anos que a cidade viveu dessa receita, além de mim foram, pela ordem prefeitos: Dr. IVO SALDANHA, JOSÉ BONIFÁCIO e MARQUINHO MENDES. E não venham com essa conversa de que eram menores as cotas, pois o recebimento começou no último ano do meu primeiro mandato e ainda assim deu para fazer em um ano um hospital, 300 casas no Manoel Corrêa, um Estádio de Futebol (Correão), a Orla do Mangue até a praia de Ossos em Búzios (hoje, a Orla Bardot), Escolas em CABO FRIO, BÚZIOS e ARRAIAL DO CABO além de pavimentação e obras nessas três cidades, pois em meu primeiro mandato Arraial e Búzios ainda eram nossos distritos”.

Agora o prefeito começa a traçar as linhas que o conduzirão nos caminhos da comparação. Claro que a divinização é um capricho que só caberá a ele mesmo. “Nunca na história desse município o povo foi tão bem governado”, esse deve ser o eixo do pensamento.

  • “Talvez eu até esteja sendo muito severo comigo ao incluir meu nome no grupo dos prefeitos e políticos que se acomodou e não tentou criar uma forte receita interna que tornasse Cabo Frio independente da Petrobras. Por exemplo, só para lembrar aos cabofrienses, a maior riqueza que tivemos com o petróleo nesses 30 anos esteve nas mãos do ex-prefeito Marquinho Mendes já que foi nos oito anos do governo dele que a cidade passou a receber a cota especial (indenização por um grande poço) a famosa trimestral valor de R$ 25/40 milhões, além da cota mensal que pulou do nosso ultimo mês dezembro de R$ 5 Milhões para mais de R$ 13 milhões. Então, fomos uma cidade super rica em arrecadação. Infelizmente agora, o que era uma receita de R$ 40 milhões a cada três meses caiu e passou para R$ 14 milhões; e o que era um repasse de R$ 13/18 milhões mensais passou para apenas R$ 10/11 milhões. Quando digo que estou sendo severo comigo é simplesmente porque no período 2005/2012, o governo anterior não fez um único investimento no turismo, nosso principal caminho para chegarmos a uma vida economicamente própria e independente. Deixei um programa de investimentos nessa área, mas ele abandonou.”

Pronto! O prefeito chegou onde queria. A cortesia, anunciada num exercício de mea culpa, é apenas uma cortina para o grande espetáculo a ser apresentado ao distinto público leitor. Faltou, neste parágrafo, o prefeito apresentar as consequências de uma cidade ser nacionalmente vista como rica e, por isso mesmo, começar a crescer (ou inchar) sem o mínimo de planejamento. E no tocante à falta de planejamento e falta de visão administrativa todos pecaram, inclusive ele.

Com a enxurrada de recursos nos cofres públicos, naturalmente houve um crescimento demográfico em Cabo Frio. Em 1995 éramos, segundo dados do IBGE, 91.022 habitantes; hoje somos quase 205 mil. Esse inchaço significa aumento da demandas dos serviços públicos em todos os setores. E, por não cuidar com destreza desse novo cenário municipal, todos os prefeitos erraram. E muito! 

  • ELE NÃO FEZ UMA ÚNICA OBRA OU ÚNICO INVESTIMENTO NO TURISMO, E O PIOR: DEIXOU O QUE FIZEMOS ACABAR E AINDA JOGOU PRATICAMENTE FORA TODA FORTUNA QUE A PREFEITURA ARRECADOU NOS SEUS OITO ANOS "GOVERNANDO", um grande crime contra a cidade!

Aqui o prefeito, que deveria continuar discorrendo sobre política pública e apresentar – uma vez reconhecidos também os seus erros – caminhos para a solução, aproveita para alfinetar quem ele considera como principal adversário: Marquinho Mendes. (soa com estranheza essa necessidade de antecipada polarização!).

As questões políticas se agigantam frente aos interesses da cidade. Cabo Frio, ao invés de ser a protagonista, passa a coadjuvante nesse joguinho do poder pelo poder. É o mais do mesmo!

  • “Quando digo que estou sendo severo me incluindo no grupo de quem nada fez, é porque ao contrário deles, enquanto governei, foquei nesse objetivo, na nossa independência através do turismo. Vejamos só; construímos todas as ORLAS DA CIDADE, O AEROPORTO, O BOULERVARD CANAL, A PRAÇA DOS QUIOSQUES, A PRIMEIRA ENTRADA COM DUAS PISTAS PARA A CIDADE COMO AV. AMÉRICA CENTRAL, A ORLA DO MALIBU E O CANTO DO FORTE, A PRAÇA DAS ÁGUAS, A PONTE MÁRCIO CORRÊA, O SHOPPING DOS BIQUÍNIS, NA GAMBOA, A SEGUNDA ENTRADA DA CIDADE - AV. WILSON MENDES, O TERMINAL PARA TRANSATLÂNTICOS E, ainda como entendia que para se fazer um turismo forte o esporte e a cultura não poderiam ficar de fora do projeto, ainda construímos o ESTÁDIO CORREÃO, O GINÁSIO POLIESPORTIVO MUNICIPAL E O TEATRO MUNICIPAL. Ficou faltando apenas o Centro de Convenções”.

A intenção é bem clara no sentido de demonizar os outros e invocar uma “canonização” para si mesmo. Cruzes! Será que o prefeito está mesmo sendo severo ao se incluir na lista de prefeitos e ex-prefeitos responsáveis pela “doença” econômica da cidade? 

  • Quero aqui não culpar tanto o Ivo e o Zé Bonifácio, pois os dois não receberam em seus governos as cotas trimestrais , apesar de, também sem a cota trimestral, em meus oito anos de administração, ter conseguido só com a mensal, fazer tudo que foi demonstrado acima e ainda conseguir mudar Cabo Frio. Se por três décadas fomos tímidos nos investimentos em turismo e ainda ficamos por oito anos ESTAGNADOS no governo "MM" temos agora a obrigação de correr contra o tempo e recuperar nossa economia através de um TURISMO FORTE!

Este trecho não carece de muitos comentários. O prefeito já disse que é bom, que os outros são fracos e culpados e que agora, graças a Deus e a ele mesmo, Cabo Frio vai sair da estagnação. 

Vamos correr contra o tempo! 



Alair Corrêa começa humilde, escorrega e volta a alfinetar adversários Alair Corrêa começa humilde, escorrega e volta a alfinetar adversários Reviewed by Alessandro Teixeira on 3.3.15 Rating: 5

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