CRÔNICA | Pedaços

Anoitecia. Caminhei por entre os cômodos vazios. As janelas estavam abertas e as folhas das árvores se espalhavam pela casa. Cheguei até a varanda, sentei na soleira da porta e observei o mar. O vai e vem das ondas me traziam diversas lembranças. Meu olhar se perdia no horizonte. As lágrimas rolaram meu rosto e, com elas, chegou o frio. Não aquele insuportável, mas sim o que causa arrepio, o que deseja e procura por um abraço forte… que nem sempre chega.



Fechei os olhos e quase pude sentir seu cheiro, seu toque em meu corpo. Como que por encanto os móveis pareciam ter voltado aos seus lugares. Nossa cama estava bagunçada da gente, no mesmo lugar. Nossas risadas ecoavam pela casa e eu usava sua blusa. Nossa cumplicidade era tanta que nem sentia mais vergonha de escovar os dentes na sua frente… e olha que isso sempre foi tabu pra mim.

Conversávamos sobre tudo, nos desentendíamos e ríamos. Sua gargalhada é única e indescritível. Como você me deu paz. O jeito que nos olhávamos era intenso, ultrapassava qualquer detalhe que possa vir a descrever nessas linhas.

Toda vez que a onda quebrava na praia, sentia que aquele momento já tinha passado e que logo que abrisse os olhos o apartamento estaria vazio como o encontrei.

Escureceu completamente. Resolvi ir embora. Tropecei em alguma coisa, parecia uma caixa. Já tinha ficado tanto tempo ali, por que não mais um pouco? Abri a caixa com cuidado. Tinha fotos nossas… várias! Umas nem sabia que existia. Tickets de cinema, de passeios, bilhetes com recadinhos um tanto obscenos; pedaços da nossa história. Na última foto da caixinha, bem no verso, estava escrito: “Tenha paciência comigo. Sei que não estou merecendo, mas é meu jeito”. Imediatamente guardei tudo na caixa, fui embora e parei de frente para o mar. O frio aumentou, chorei sem parar. Meu coração estava perdido, não sabia o que fazer. Queria fugir, não pensar, mas não conseguia.

Senti alguém chamar meu nome. Virei lentamente e contemplei o sorriso mais fascinante de toda minha vida. Não tínhamos marcado nada. Apenas estávamos ali. Nos aproximamos e nos envolvemos num longo abraço. Todas as mágoas se perderam, nem sabíamos mais o porquê do distanciamento. Sorrimos. Quanto mais nos tocávamos, mais nos descobríamos. Nossos pedaços viraram um todo. Se isso é amor? Vamos descobrir… não temos pressa… Queremos apenas aproveitar cada momento como se fosse único e eternizá-lo em cada pedacinho das nossas almas!!!

KEETHERINE GIOVANESSA é empresária, jornalista, formada em Letras (Português e Espanhol), produtora, locutora e apresentadora de TV.

CRÔNICA | Pedaços CRÔNICA | Pedaços Reviewed by Alessandro Teixeira on 7.6.15 Rating: 5

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