SILVANA BRAGA | Que modelo de família está sendo defendido?

Quando ingressei pra faculdade, ouvi muitos questionamentos do porquê eu havia escolhido o curso de História. Até hoje respondo que se acontecer algo com o mundo e tivermos que recomeçar, três coisas não podem faltar: quem ensine a ler e escrever, quem ensine a entender a importância da matemática e quem se dedique a resgatar e a repassar a história, até porque é pela história que se chega aos fundamentos das letras e dos números. 


É pela história que podemos observar o homem e suas ações e transformações em todos os campos do conhecimento da humanidade. Não há aqui nenhum exagero e nenhum demérito a qualquer outra atividade ou profissão.

Entretanto, estamos vivenciando um momento da história com impactos que transpassam o nosso entendimento e que não temos ideia de seu resultado. E os livros de história mostraram este momento dentro de um processo macro e estrutural, auferindo resultados gerais, como se todos concordassem ou discordassem em uma única voz. Mas o desenrolar do momento, que é este que estamos vivendo, traz muito mais o resgate do passado do que da construção de um futuro.

Dois temas hoje me incomodam e pelo mesmo motivo. Um dos temas é sobre a Identidade de Gênero proposto no PNE. O outro tema é a redução da maioridade penal, já aprovada pela Câmara dos Deputados. 

Estes dois temas são extremamente polêmicos e têm gerado debates acalorados. E, assim sendo, não manifestarei minha opinião, que já tenho formada, e sim minha preocupação: de onde surgiram, quem elas de fato representam e a quem realmente interessa? Levanta-se uma bandeira de direitos e igualdades que, ao ouvir o outro lado, me preocupa.

Não sou homofóbica, mas fui criada e educada em uma sociedade onde cada um tem seu lugar, pautada pelo respeito e que falava "sua liberdade vai até onde a do outro começa". Enquanto todos se horrorizavam com mensalão, petrolão e outros apelidos para a corrupção, um deputado aprovou uma lei que permite o uso livre de banheiros (conforme a identidade de gênero), ou seja, se um homossexual se sente mulher ele pode usar o banheiro feminino, por exemplo.

Pessoalmente isso me incomoda. E muito! Mas não acredito que resgatando um valor do passado, de uma sociedade da qual não mais fazemos parte, vá resolver a situação. Digo isso porque para combater a proposta da Identidade de Gênero religiosos diversos se uniram em "prol da família". Até aí, tudo bem. Mas quem passar pelo Jardim Esperança verá uma faixa gigantesca chamando para a Marcha da Família, a mesma convocada para as ruas no ano passado. A mesma do período da opressão militar. Não consigo deixar de acreditar que os organizadores desta marcha estão se utilizando da proposta de Identidade de Gênero para tentar alavancar seu movimento mais uma vez.

O mesmo digo da redução da maioridade penal. A um tempo atrás defendi que esta proposta tem que ter a prerrogativa objetiva de ser aplicada somente a crimes hediondos, caracterizando quais são estes crimes. Entretanto, da forma que está vai afetar toda a esfera da juventude, revogando permissões e proibições, mexendo inclusive na questão da pedofilia. 

Cabe ressaltar que temos muitos jovens de bem que não estão no crime e que serão afetados negativamente por essas mudanças. Para ficar claro: a partir dos dezesseis vai poder comprar cigarros, bebidas, frequentar boates e inferninhos, entre outras coisas do tipo. A indústria de cigarros, bebidas e os patrocinadores do turismo sexual devem estar comemorando sem parar. Falta o Senado aprovar. 

E eu fiquei na dúvida: com relação à Identidade de Gênero o Estado não está capacitado para cuidar de nossos filhos, mas permitimos, a partir da redução da maioridade penal, que este mesmo Estado incapaz torne nossos filhos adultos aos 16 anos, expondo os que são inocentes, e para aumentar ainda mais a comunidade carcerária do país e para gerar mais lucros à indústria de cigarros, bebidas e prostituição? Qual família realmente está sendo defendida?

Este artigo não é para defender nenhum dos lados. A proposta é que toda a sociedade deve pesquisar e se inteirar desses assuntos e outros que nos são trazidos. Não sabemos de fato com quem estamos lidando, o que estamos defendendo ou atacando e, de repente, coisas simples, que deveriam garantir direitos, simplesmente estão nos levando para um caminho sem volta que beneficia o mercado, o capital e os poderes instituídos para nos representar e que verdadeiramente defendem interesses escusos dos quais nem fazemos ideia. 

Pode ser que quando o gigante acordar seja tarde demais. Devemos ficar atentos. Enquanto nos distraem colocando a sociedade em “pé de briga” com o discurso da família e das "minorias", vão aprovando coisas que só aprofundam mais o abismo que eles criam e a gente cai. 

Não vivemos uma crise moral, vivemos uma crise de oportunidades e estamos servindo o cardápio. Vamos lembrar: quem come mosca é sapo e nossa dieta tem que ser mais requintada. Vamos fechar a boca e abrir mais os olhos!

SILVANA BRAGA, cidadã e professora de História.

SILVANA BRAGA | Que modelo de família está sendo defendido? SILVANA BRAGA | Que modelo de família está sendo defendido? Reviewed by Alessandro Teixeira on 25.6.15 Rating: 5

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