SILVANA BRAGA | Ter opinião adversa não é rivalizar

É interessante observar como se dá a construção de valores sociais e a dinâmica de rotulação de indivíduos. Em um processo de desenvolvimento de uma criança, por exemplo, sempre vemos mães ensinando e corrigindo seus filhos até que estes associem, compreendam e aprendam. Ao corrigir para ensinar, diversas táticas são utilizadas: conversa, broncas, críticas, palmadas, castigos e punições. 

Muitas vezes, a criança adquire nova forma de fazer o que a mãe ensina, o que não quer dizer que ela não aprendeu. Isso indica que aprendeu de um modo diferente. Este processo, que para muitos pode parecer conflituoso, alcança seu objetivo e o resultado só a vida irá mostrar. Entretanto, independente da criança, as táticas são sempre muito parecidas e isso não torna a mãe oposição de seu filho e nem o filho adversário da mãe. 


Em uma cidade, quando grupos se organizam para reivindicar direitos específicos ou coletivos não significa que são oposição. Ter opinião adversa do que está sendo praticado em uma administração não é rivalizar ou ser apoiador de um adversário. Muitas das vezes isso mostra apenas uma insatisfação diante da repetição de práticas que todos sabem que ou não funcionam ou são apenas eleitoreiras.

Minha satisfação é ver que o povo em geral e o eleitorado em particular já entenderam isso. Só que quem está no poder também entendeu. E, assim como um filho teimoso, esses insistem em não aprender o que é ensinado e pioram seus erros. 

É uma cena clássica: três crianças em uma casa. Uma delas vai para a cozinha pegar escondido o doce que a mãe disse que só podia comer depois do almoço. Outra criança está escondida observando a peripécia. Ao tentar abrir o pote de vidro, a criança o deixa cair e este quebra. A mãe pergunta: "o que está acontecendo aí?" e a criança diz: "nada não, mãe!". Então pega a vassoura e varre os vidros para um canto da cozinha onde acha que ninguém vai ver o que aconteceu. 

Varre, passa o pano e deixa limpinho o caminho. A outra apenas observa de longe. Então a terceira criança entra na cozinha e acaba furando o pé com um caco de vidro; aquele caco que aparentemente era invisível. E toda a história vem a tona, com a mãe detalhando cada passo do que aconteceu de fato. 

Assim está a administração municipal de Cabo Frio. A criança que quebra o pote é a administração municipal; a que só observa é o Legislativo de nossa cidade, que está vendo o erro e não faz nada por dois motivoz: primeiro pensa "se der certo, vai ter que me dar uma colherada para eu não contar nada para mamãe" e, segundo, para ver se aprende para poder fazer sozinho depois; a terceira criança é o povo, que em tudo acredita. Como a resposta à pergunta da mãe foi "nada não", ele realmente acredita que pode ir na cozinha. E a mãe é o povo em geral, o eleitorado, que sabe tudo o que está acontecendo, passo a passo. E está vendo, mesmo sem usar os olhos, mesmo sem falar nada.

Nesta cena o que mais deve inspirar preocupação é a criança que só observa. Esta poderia impedir a outra ou alertar a mãe sobre o que está acontecendo, mas nada faz. Nitidamente seus objetivos são escusos e maldosos em todos os sentidos. Ela quer ver a outra se dar bem ou mal, ou quer ver a outra enganar a mãe e quer aprender para fazer igual. E no final sai ileso. Assim está a nossa Câmara de Vereadores, seja com o poder Executivo ou com o povo. Desde que saia ilesa, vai continuar omissa.

Contudo, varrer os cacos para um canto e limpar o caminho é o mesmo que entregar cestas básicas em comunidades carentes; é o mesmo que colocar placas em todos os postos de saúde da cidade anunciando reforma e ampliação das unidades; é o mesmo que liberar seus pares para concorrerem a sua vaga na próxima eleição. Só que a "mãe" está vendo. E mãe tem uma curiosidade: o filho pode até não aprender a lição (muitos não aprendem), mas nunca, em hipótese alguma, devemos deixar de respeitar a mãe. Palavra de mãe é palavra forte, quando ela fala, todos escutam, certa ou erada, é a mãe! Todos respeitam a mãe e, por isso, é a única coisa que ela exige é respeito!

A mãe está perguntando há três anos: "o que está acontecendo aí?". E há três anos escutamos as mais variadas respostas para justificar o "nada não, mãe!". O próximo ano é ano eleitoral, hora da mãe ir na cozinha, hora do povo votar. 

Não vamos nos deixar enganar com caminho limpo sabendo dos potes quebrados em cantos. Como boa mãe, vamos colocar o arteiro de castigo para ele aprender a ouvir a mãe: o doce é só depois do almoço! Vamos cuidar do pé do que se machucou, ou seja, cuidar do povo que sofre com as imprudências do governo e aproveitar para perguntar ao observador onde ele estava enquanto aquilo tudo acontecia e puni-lo pela sua omissão.

Ano que vem a mãe vai na cozinha! É a hora do respeito, começando pela própria mãe!

SILVANA BRAGA, cidadã e professora de História.

SILVANA BRAGA | Ter opinião adversa não é rivalizar SILVANA BRAGA | Ter opinião adversa não é rivalizar Reviewed by Alessandro Teixeira on 29.7.15 Rating: 5

Um comentário:

  1. Então, a administração municipal e o legislativo estão precisando de uma Psico pediatra?

    Oh, galera! Eu não sou Mendes e muito menos Correa , pelo amor Deus! Estou só dando a minha humilde indicação, digo opinião.

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