SILVANA BRAGA | O governo trabalha no sentido de administrar a culpa

No começo dos anos 2000, um jornal da cidade lançou um projeto com o nome “Cabo Frio – Verão o ano inteiro”. Nesta época, havia uma cultura de que a cidade só funcionava bem no verão, quando estava cheia de turista. Era a cidade “para inglês ver” e a ideia do jornal foi a de mobilizar todos os setores – poderes constituídos, associações, órgãos públicos, empresas responsáveis por serviços e a sociedade em geral para que a cidade funcionasse bem o ano todo. 

A dinâmica era a de realização de reuniões periódicas, onde um determinado tema era apresentado, debatido e alternativas eram acertadas. Mais do que debater o turismo ou soluções para o desenvolvimento organizado da cidade, havia ali um embrião alertando que os recursos do petróleo e os royalties não eram eternos e que deveriam ser bem investidos. 


No entanto, o glamour do ouro negro cegou os olhos do poder e a iniciativa do jornal não logrou o êxito esperado, ficando pelo caminho e com gostinho de “quero mais” para quem estava ali realmente pelo bem da cidade. E assim, os recursos advindos do ouro negro permitiram um sonho megalomaníaco de governar Cabo Frio por 30 anos, promoveram a ruptura de um grupo político, patrocinaram um novo binômio na disputa pelo Poder Executivo na cidade e hoje servem de pretexto para a famigerada crise que assola o município. 

Nisso tudo só lamento que em uma cidade com pessoas de visão haja excesso de gente no poder sem audição. Se tivessem escutado lá atrás, não estaríamos tão desestruturados economicamente hoje. A crise em nosso município é uma prova do despreparo no trato com as finanças públicas e na má condução dos recursos dos royalties. E para se redimir, joga-se a culpa em todos os setores, que também são vítimas da má organização administrativa. 

O caos administrativo está generalizado: segurança, educação, transporte, limpeza urbana, saúde e tantos outros. Por exemplo, nem dá para dizer que houve uma intervenção na Saúde de Cabo Frio. O quadro continua o mesmo. O que houve foram falácia e produção midiática de ações que qualquer um poderia ter promovido. Essa “intervenção” com substituição de secretário não passou de autopromoção pessoal de um indivíduo que viu nos problemas da Saúde uma bela motivação para retomar a popularidade frente ao eleitorado. Os problemas continuam, só que agora são mais da esfera administrativa, visto que se tentou terceirizar os serviços da Saúde à moda da casa.

Temos o caso das escolas que sofreram vandalismo em Cabo Frio. Questionaram a Polícia Militar. Mas a escola tem vigia. E mais: a Guarda Municipal deveria fazer rondas aos patrimônios municipais. Mas, como criticá-los, se o efetivo é pequeno e está voltado para a apreensão de veículos irregulares? Como criticá-los se o efetivo só aumenta quando chega o verão? Não temos guardas para o controle de trânsito, nem dentro de hospitais e, sobretudo à noite. Aqui em Cabo Frio só funciona quando o povo reclama em algum veículo de comunicação. E isso é para todos os setores públicos, que hoje estão no caos.

Se existe uma luz no fim do túnel, estou achando que a lâmpada queimou e, ao invés de trocarem a lâmpada, estão tentando achar quem é o culpado por ela ter queimado. Esse é o problema de Cabo Frio: ao invés de resolverem problemas pontuais, trabalham no sentido de administrar a culpa. 

Estamos em crise? Sim, estamos! A cidade está um caos? Sim, está! Somos uma cidade pobre? De modo algum. Não somos! Estão faltando competência e vontade de administrar adequadamente, investindo nas potencialidades do município para superar a crise. Como este não é o prato do dia, nos resta escolher num futuro bem próximo com quem desejamos superar esta crise e como poderemos levar nossa Cabo Frio do caos à transformação, onde a cidade volte a ser do cidadão.

SILVANA BRAGA, cidadã e professora de História.

SILVANA BRAGA | O governo trabalha no sentido de administrar a culpa SILVANA BRAGA | O governo trabalha no sentido de administrar a culpa Reviewed by Alessandro Teixeira on 11.9.15 Rating: 5

2 comentários:

  1. "Somos uma cidade pobre? De modo algum" Entretanto somos sim uma cidade miserável e muito pobre de espirito, e com uma população desprovida de inteligência, já deveriam ter percebido a anos que o modelo e as pessoas que estabeleceram tão modelo, não prestam! E por isso e por causa disso, nunca vai dar certo! Quem puder que fuja!!!!

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  2. Galera, Cabo Frio sempre vai refletir como um breu. A única luz que tem no fim do túnel desta cidade são dos faróis do ônibus da Dona Salineira. Essa sim, tá com tudo! Essa sempre clareia e "ilumina" e dá esperança há muita gente.

    E não é “para inglês ver”. É para cabofriense ver mesmo. Quem vive em cima de um livro de contos de fadas é grande parte da população de Cabo Frio e não a população londrina. Povo de Cabo Frio foi costureira na outra encarnação. Vive de fantasia.

    Como era esse projeto do jornal, para que Cabo Frio fosse : "verão o ano inteiro". Era tipo: "Pirlimpimpim", ai só existira uma estação do ano da cidade. Ou faz de conta que trocamos de lugar: estamos na Europa, no verão e voltamos para Cabo Frio no inverno europeu? Esse jornal com toda certeza merecia um troféu, pela genialidade ilusionaria.

    "população desprovida de inteligência", Concordo. Mas pobre de espirito é a população e não a cidade que tem um astral ótimo, como pessoas de aura carregadas. .
    Enquanto houver "pagodeiros" , a terra amada sempre vai ser a cidade pagode. E agora pagode cansado de uma nota só.



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