SAULO MENDONÇA | O que almeja o povo?

Outro dia contaram uma anedota interessante que afirmava que o Brasil é o país onde ninguém se responsabiliza por nada e que esta prática seria tão comum que constava até no hino nacional, no trecho que afirma: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. Desta forma, não se sabe quem ouviu efetivamente, mas, de qualquer forma, a notícia teria sido lançada, se verídica ou não, não se sabe, não importa, ninguém estaria disposto a avalizar a veracidades, sabe-se apenas que ouviram.

O gracejo, talvez carente de graça, me fez imaginar como seria um lugar, diferente deste, onde a responsabilidade é sempre transferida a outrem sem nunca sustentar-se nas mãos de cada agente socioeconômico de direito.

Num lugar assim, se existisse, talvez fosse fácil fomentar a cultura da vitimização onde “um inimigo”, ou “o inimigo” é facilmente idealizado, instituído, fabricado propriamente dito e responsabilizado de forma sumária, como se cada ato individual não proporcionasse uma consequência individual e coletiva concomitantemente.


Segundo consta, o povo constitui o conjunto de indivíduos que, num dado momento histórico, constitui uma nação. Mas, uma nação inteira almejando apenas pão e circo?

Neste lugar, as crianças não receberiam educação porque as escolas são ruins porque o Poder Público não as administra corretamente, nem remunera adequadamente professores e tal responsabilidade não cabe mais aos genitores. O mesmo se diria dos profissionais que trabalham nos hospitais e postos de pronto socorro que, por conta das péssimas condições de trabalho, deixariam de atender às pessoas. E, no que tange à segurança pública, a corrupção seria percebida como uma ação normal e justificaria o péssimo atendimento às vítimas e qualquer cidadão que busque por socorro.

Desta forma, a noção máxima de democracia, como sendo um “governo do povo, pelo povo, para o povo.”, como se diz que teria dito o Abraham Lincoln, se dilui, se converte corrompida num governo dito como sendo do povo, pois os representantes são eleitos, mas suas ações na gestão da coisa pública nem sempre se dariam de acordo com os interesses do povo ou o teria como destinatário real.

Quiçá, até mesmo a instrumentalização das eleições possa ser questionada, se for considerar que toda a verborragia empregada nas propagandas eleitorais destinadas ao convencimento das pessoas tem por objetivo real agir em detrimento delas que, mesmo suspeitando deste fato, votariam por serem agraciadas com mimos pessoais ou pequenas quantias em espécie.

O que faz pensar: afinal, o que de fato almeja o povo? 

Segundo consta, o povo apoiava os líderes romanos, eram fiéis à ordem instituída pelo emprego da política panem et circenses, o que é estranho de se pensar, considerando que, segundo consta, o povo constitui o conjunto de indivíduos que, num dado momento histórico, constitui uma nação. Mas, uma nação inteira almejando apenas pão e circo?

É. É o que parece. Principalmente quando se vê alunos sendo dispensados de suas aulas por conta de infestação de pulgas na unidade escolar, entrega da gestão das unidades de pronto atendimento a outras esferas de governo (em flagrante confissão de ineficiência) e instrumentos de publicidade e transparência da gestão pública ignorado de tal forma que recomendações são feitas expressamente aos representantes do povo, por ele eleitos, no sentido de que se tomem medidas administrativas para que se mantenham atualizados e em funcionamento os portais da transparência.

Quando tudo isso acontece e ainda se vê cidadãos vibrando com a notícia de que os festejos de final de ano estão assegurados, tem-se certeza de que, embora antiga, a política panem et circenses é deveras eficaz.

O pior deste lugar não é a corrupção dos maus, mas a de todos. Refletir sobre esse lugar fictício permite pensar que quando uma sociedade critica um chefe de governo em verdade está a imiscuir-se de sua própria responsabilidade, pois que a ascensão de um cidadão ao cargo de chefia se dá em atenção aos interesses dos chefiados de forma que sua queda se deve à desatenção aos mesmos interesses.

Assim, por mais que na nossa realidade estas situações não se verifiquem tal como imaginadas, vale a reflexão: o que, de fato, almeja o povo?

SAULO MENDONÇA, professor.

SAULO MENDONÇA | O que almeja o povo? SAULO MENDONÇA | O que almeja o povo? Reviewed by Alessandro Teixeira on 30.11.15 Rating: 5

2 comentários:

  1. Pão e circo...muita corrupção e o desejo eterno de ser esculachado o tempo todo. Otários! Vejam os casos de explosão de microcefalia amplamente divulgados pela mídia, e que todos sabem que o vetor é o mosquito aedes aegypti também transmissor da dengue, o tempo todo bombardeiam as pessoas que elas devem cuidar de suas casas, corretíssimo! Mas e o Estado? As cidades estão infestadas de vetores as prefeituras não recolhem o lixo de forma adequada, as calçadas e ruas estão imundas é lixo e entulho pra todo lado! PORRA É LOGICO QUE TODOS TEM QUE CONTRIBUIR, TODOS, INCLUSIVE AS PREFEITURAS E SUAS RESPONSABILIDADES EM RELAÇÃO A LIMPEZA DAS RUAS E COLETA DO LIXO! CABO FRIO ESTÁ UMA IMUNDICE!!!!

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  2. Povo consegue ser pior do que os políticos. Todo errado e ainda quer falar de políticos.

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