OPINIÃO | A lição dos professores em greve

Os professores da rede pública municipal de Cabo Frio seguem em greve, mas não abandonam a função de lecionar. Neste período de paralisação estão ensinando não apenas aos alunos, mas a toda a sociedade lições de efetiva cidadania.

A defesa da integridade dos vencimentos dos cidadãos trabalhadores representa uma das molas mestras da engrenagem social contemporânea na qual todo trabalhador se vê obrigado a vender sua mão de obra para sustentar a si e sua família.


Não compreendam mal esta afirmação: trabalhar é edificante e tem sorte aquele que tem a oportunidade de trabalhar no segmento que lhe apraz, mas, independente de no que se trabalha, todos os trabalhadores se prestam ao labor com o fim principal de custear seu sustento e o de sua família.

É certo que muitos têm criticado a postura dos profissionais da Educação, alegando que o interesse dos estudantes estaria sendo vilipendiado. Mas talvez, numa porcentagem inversamente proporcional, poucos se prestariam a trabalhar sem perceber seus vencimentos integrais.

A discussão é complexa e em tempos de crise econômica há quem sustente que “governos federais, estaduais e municipais gastam rotineiramente cifras absurdas com pagamento de servidores que recebem acima do teto constitucional. Estimativas feitas por fontes do Ministério da Fazenda e do Congresso apontam que, caso a lei fosse de fato cumprida, a economia para os cofres públicos chegaria a quase R$ 10 bilhões por ano, considerando os governos federal, estadual e municipal. A cifra é similar ao montante que o governo pretende conseguir em 2016 com a recriação da CPMF, que ainda tem uma longa batalha para ser aprovada pelo Congresso Nacional”, como se lê em Extinção de super salários renderia "uma CPMF" aos cofres públicos, publicado pelo Estadão.

O curioso é que não se verificam servidores e funcionários públicos de escalão remuneratório superior reclamando de perdas salariais e atrasos nos vencimentos, seja em qual ente federativo for, o que nos leva a duvidar se as ações praticadas pelos representantes do povo eleitos de forma supostamente democrática se dão, de fato e de direito, em favor dos interesses sociais e coletivos deste povo.

Contudo, os ditos “super salários” estão longe de serem concedidos aos profissionais da Educação neste país. Para estes a realidade tem se mostrado diametralmente oposta, como se verifica com o exemplo de Cabo Frio.

A despeito das assertivas atribuídas ao atual exercente do Poder Executivo municipal, o que se tem depreendido inclusive pelos canais de comunicação que ostentam sua chancela mecânica é que os vencimentos dos servidores públicos municipais não estão sendo quitado a contendo, fato que se tem por comprovado como flagrante lesão ao princípio constitucional da proteção salarial e permite considerar todo o embate publico que se vivencia nas ruas e em redes sociais como efetivo e continuo assédio moral praticado contra os servidores públicos.

O curioso é que não se verificam servidores e funcionários públicos de escalão remuneratório superior reclamando de perdas salariais e atrasos nos vencimentos, seja em qual ente federativo for, o que nos leva a duvidar se as ações praticadas pelos representantes do povo eleitos de forma supostamente democrática se dão, de fato e de direito, em favor dos interesses sociais e coletivos deste povo.

De toda forma, resta-nos parabenizar os professores da rede pública municipal de Cabo Frio pela persistência na defesa de seus direitos e manter-nos na esperança de que eventual intervenção do Poder Judiciário não os obrigue a desenvolver seu mister funcional sem a devida compensação remuneratória, forçando-os a um maior empobrecimento injustificado. E, neste caso, a adjetivação como “maior” se deve ao fato de que não se tem esperanças de que estes profissionais sejam contemplados com o devido e necessário reajuste salarial neste exercício social, inobstante a avassaladora e notória inflação que se presta a corroer a capacidade aquisitiva dos cidadãos.

Resta-nos ainda nutrir a esperança de poder contar em período eletivo futuro com representantes do povo mais afinados com a realidade financeira pós-royalties petrolíferos, dispostos a rever conceitos e práticas gerenciais e conscientes das determinações e obrigações legais tanto quanto das necessidades de atribuir prioridade ao que de fato é prioridade: Saúde, Segurança e, principalmente, Educação pública.

SAULO BICHARA é professor Adjunto II na Universidade Federal Fluminense.

OPINIÃO | A lição dos professores em greve OPINIÃO | A lição dos professores em greve Reviewed by Alessandro Teixeira on 15.2.16 Rating: 5

Um comentário:

  1. É isso Mestre... culminando com a improbidade administrativa por violação dos princípios constitucionais como Legalidade e impessoalidade por pagar alguns em detrimento de outros.
    Abraço Mestre.

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