OPINIÃO | Ó pai ó!

O prefeito de Cabo Frio se supera e pinta um intrigante quadro impressionista, retratado na Praça Porto Rocha. Tão emblemática quanto O Lago das Ninféias, último quadro pintado pelo grande impressionista Claude Monet, esta melancólica foto da manifestação governista em Cabo Frio contra os professores grevistas nos arrebata a um vulcão ativo de inúmeras reflexões. As constatações produzidas pela foto são tantas que dificilmente conheceremos a dimensão histórica deste ato.

Mas a pena e o papel precisam se casar. Portanto, vamos às reflexões. Numa análise mais provinciana e oposicionista, poderíamos concluir que esta foto demonstra uma sintonia perfeita do governo de Cabo Frio e o padrão gestor do seu mandatário. 


Foi assim quando ele resolveu importar avestruzes com objetivo de comercializar a carne, fazer omeletes gigantes ou vender penas para carnavalescos; não sabemos ao certo na época qual era a proposta empreendedora. O que sabemos é que os bichos adoeceram ou morreram e, salvo alguns espécimes que hoje perambulam pelas brenhas do Segundo Distrito, o resto desapareceu.

O monopólio da informação mudou de mãos e a mídia comprada dissolveu-se no seu propósito. Fabricar notícias não é mais uma estratégia tão eficaz para um governo.

Recentemente o brilhante prefeito-empresário construiu um parque aquático a pouquíssimos quilômetros das praias mais lindas do Estado, achando que podia competir com o entorno balneário de Búzios, Tamoios e Cabo Frio juntos, onde os banhistas nada pagam para mergulhar. Impressionante mesmo foi a engenharia obscura que conseguiu levar milhões de metros cúbicos de água potável no parque onde as comunidades vizinhas quilombolas sofrem com a seca e a falta de água encanada para se alimentar e beber, precisando dos caminhões-pipa contratados pela Prefeitura. Fora isso, o parque segue abandonado e com problemas de segurança.

O empreendedorismo fracassado do Nabucodonosor cabo-friense com seus jardins suspensos poderia explicar a incapacidade dessa gestão municipal em administrar esta crise. Mas a foto nos diz muito mais que isso; ela grita alto que o modelo da política brasileira esgotou sua capacidade de gerar bem estar ao seu povo - se é que um dia foi capaz disso! - e o seu tanque de combustível já entrou na reserva.

Todas as cidades estão passando pela mesma crise provocada pela extrema instabilidade econômica e política que atravessa o país. Mas já está claro para todos nós, assistindo à atuação do “japa” da Polícia Federal, que os políticos que defendem esse modelo são os verdadeiros sabotadores da economia nacional. A corrupção produzida por este sistema ruiu o próprio sistema.

Embora absurdo, os candidatos a vereador continuam acharcando candidatos a prefeito, exigindo que eles assumam compromissos eleitorais que só poderão ser cumpridos de forma corrupta, roubando o dinheiro público.

As mesmas redes sociais que elegeram Obama e derrubaram os regimes no Oriente Médio, produzindo a primavera árabe, é a mesma que alimenta de informação duzentos milhões de fiscais do dinheiro público no país. As Casas Legislativas, não fossem suas prerrogativas para criarem leis, já não se justificariam mais. O Poder Executivo, da gestão coronelizada, ditatorial e repressora precisa agora operar com transparência e transparência é o colar de alho para esses vampiros do dinheiro público.

Os velhos coronéis que revezam o poder há décadas - desde o restabelecimento da nossa democracia - não conseguem conviver com o movimento da Nova Política que traz na sua coluna vertebral a participação popular e a transparência interativa da moderna política 2.0. Eles tocam a banda de fole no “vamos-que-vamos” e gerenciam a crise na base do “deixa estar pra ver como é que fica”. Esses políticos foram capacitados para enfrentar os desafios de uma gestão empreendedora. Jamais ouviram falar em ‘empowerment’, ‘house keeping’, ‘just in time’, ‘kanbam’, reengenharia e qualidade total. São, no verdadeiro sentido da palavra, ignorantes na administração. Perdem convênios, contratam errado, ignoram a importância de sistemas de informática na desburocratização, alocam recursos de forma equivocada, são improdutivos e, pior, corruptos.

Na mesma linha, segue o Legislativo, só que de forma mais trágica. Embora absurdo, os candidatos a vereador continuam achacando candidatos a prefeito, exigindo que eles assumam compromissos eleitorais que só poderão ser cumpridos de forma corrupta, roubando o dinheiro público que deveria ser aplicado na qualidade de vida dos munícipes. A contrapartida seria eles legislarem com vendas nos olhos. Na verdade, esses cidadãos não fazem campanha; formam quadrilhas. Não fazem idéia do que é a função de vereador.

O povo vai ser um fiscal ainda mais implacável com o dinheiro público e com a atuação do Legislativo.

A Nova Política e a Política 2.0 representam um ponto fora dessa curva, um caminho sem volta e os fatos revelam que já estamos em pleno processo dessa reciclagem política. O povo vai ser um fiscal ainda mais implacável com o dinheiro público e com a atuação do Legislativo. O monopólio da informação mudou de mãos e a mídia comprada dissolveu-se no seu propósito. Fabricar notícias não é mais uma estratégia tão eficaz para um governo; nem a omissão legislativa garante mais uma carreira vitalícia na tribuna.

O trio elétrico estacionado em frente à Prefeitura para meia dúzia de apoiadores do sistema não representa a marchinha fúnebre do regime dos coronéis incompetentes da nossa política. Representa o abre-alas que aponta na cabeceira da avenida onde o objetivo é a apoteose de uma nova cultura na política.

Um quadro de Monet.

GILMAR AGUIAR é coordenador do partido Rede Sustentabilidade e fundador do Movimento Voto Vivo.
OPINIÃO | Ó pai ó! OPINIÃO | Ó pai ó! Reviewed by Alessandro Teixeira on 25.2.16 Rating: 5

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