OPINIÃO | São apenas negócios!

Imortalizada pelo brilhante Francis Ford Coppola em “O Poderoso Chefão”, a frase que sequestrei como título para inaugurar esta coluna traduz de forma bastante simples e objetiva o mundo político nas cidades do Rio de Janeiro.

Embora saibamos que os políticos jogam com dois baralhos, todos nós buscamos enxergar a política através da lente romântica do espectador no cinema que torce para que o mocinho se case com a princesa e ambos sejam felizes para sempre.


Nós seres humanos alimentamos a cultura jurássica de que a vida é uma eterna luta do bem contra o mal, vive polarizando tudo que reconhece no ambiente, como se assistíssemos a um filme onde os atores que representam o mal e o bem, dependendo do roteiro, podem trocar de papéis. Para nós, isso pouco importa, desde que nossas emoções identifiquem essa polarização em combate no drama apresentado. 

Neste sentido, a Alerj representa os estúdios hollywoodianos e o gabinete do presidente da Casa, o escritório do produtor. Cabo Frio e os outros 91 municípios do Estado são apenas locações onde eles gravam as externas que, juntas na mesma película, garantem mais um sucesso de bilheteria. A cada eleição, um novo roteiro, uma nova produção, porém com os mesmos atores e com o mesmo objetivo de apresentar uma luta do bem contra o mal que nos emocione a ponto de comprarmos alguns ingressos e convidarmos outros amigos para assistirem à super produção.

A suspeita falência da cidade é um script criado para dar mais dramaturgia à cena e glorificar o mocinho que brandirá sua espada contra o perverso prefeito déspota e garantir os aplausos. 

No roteiro de 2012, os mesmos atores representavam papéis diferentes do roteiro para 2016. 

Dessa forma assistimos em 2012 Paulo Melo e o ex-prefeito de Cabo Frio levantarem juntos a mão de Alfredo Gonçalves como candidato de Marquinho, mas foi o PDT de Cabo Frio, fiel aliado de Picciani e Cabral na Alerj, quem foi homologado como candidato. Fazia parte do roteiro.

Assistimos também ao prefeito atual trazer para palanque o aliado histórico Garotinho, que não poupou pulmões em pedir voto para o patriarca dos Corrêas. Mas foi o padrinho político do prefeito, Francisco Dornelles, fundador do PP e então candidato de Picciani a vice-governador, quem definiu e  indicou a Alair que apoiasse Pezão para governador. 

O candidato do PDT atravessou a avenida vários carnavais com o enredo “Marquinho, o Anti-Cristo de Cabo Frio”, mas bastou sentar-se nas poltronas da Alerj e tomar um cafezinho com Picciani para apresentar o anti-Cristo como aliado em 2012 e oferecer todos os seus palanques de campanha. No roteiro de 2016, o samba pedetista do anti-Cristo voltou a disputar o enredo, apostando na imbecilidade e na curta memória do espectador.

Quaisquer que sejam os candidatos do PP, do PMDB e do PDT, todos fazem parte do mesmo roteiro do produtor Picciani. Para garantir a bilheteria eles vão manter a fórmula de sucesso: criar um ambiente de luta do bem contra o mal para o ator, que dessa vez vai interpretar o bem, seja aplaudido de pé e o filme seja um sucesso de público e crítica. 

O público atento ao filme e comendo sua pipoca não percebeu a sutil engenhosidade do roteiro. Alair sai do PMDB de Picciani e vai para o PP do vice de Pezão, ou seja, fica no ninho de Picciani. Marquinho sai do PSDB e vai para o PMDB de Picciani, logo fica no mesmo ninho que Alair. O PDT é a terceira via de Picciani, no caso de uma condenação de Marquinho, já que é o seu aliado mais fiel. 

Assim é montado um roteiro cujo objetivo final é nenhum deles perder. A disputa é apenas para fingir que existe uma disputa. Ninguém faz ideia do prêmio de consolação que a Alerj e o governo estadual irão oferecer ao perdedor. Os produtores Pezão, Dornelles e Picciani já têm um objetivo comum, que é eleger seu candidato em Cabo Frio. Isso faz parte do sonho de poder do PMDB para comandar o Congresso Nacional medindo força com os outros Estados.

Portanto, para 2016, quaisquer que sejam os candidatos do PP, do PMDB e do PDT, todos fazem parte do mesmo roteiro do produtor Picciani. Para garantir a bilheteria eles vão manter a fórmula de sucesso: criar um ambiente de luta do bem contra o mal para o ator, que dessa vez vai interpretar o bem, seja aplaudido de pé e o filme seja um sucesso de público e crítica. 

A suspeita falência da cidade é um script criado para dar mais dramaturgia à cena e glorificar o mocinho que brandirá sua espada contra o perverso prefeito déspota e garantir os aplausos. Na entrega desse Oscar ouviremos emocionados e em prantos os atores se abraçarem, erguerem a estatueta, agradecerem às suas famílias, ao público e no discurso do produtor vitorioso, as sábia palavras; “são apenas negócios!”.

Desce o pano.

GILMAR AGUIAR é coordenador do partido Rede Sustentabilidade e fundador do Movimento Voto Vivo. 

OPINIÃO | São apenas negócios! OPINIÃO | São apenas negócios! Reviewed by Alessandro Teixeira on 15.2.16 Rating: 5

3 comentários:

  1. Perfeita analise!Sabemos como termina o final esse filme!!!

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  2. E por isso q eu só voto em candidatos do PSOL.

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